Delegada: “O não da mulher não vale nada para esses agressores”

Policia

A delegada Jéssica Assis, da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), afirmou que os recentes casos de feminicídio registrados em Várzea Grande revelam uma realidade preocupante e mostram o quanto “é difícil ser mulher na sociedade”.

“O não da mulher não vale nada perante esses homens, esses agressores, que não nos consideram como humanas”, afirmou a delegada.

A declaração foi dada durante coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (9), ao detalhar o depoimento de Gabryel Junio de Almeida Dirceu, de 20 anos, preso acusado de matar a dona de casa Josivany Borges de Amorim Rodrigues, de 45 anos.

A delegada citou também o feminicídio de uma menina de 12 anos, morta esganada pelo próprio pai, Claudinei da Silva, de 42 anos, que alegou ter encontrado uma troca de mensagens no Instagram da filha.

Para Jéssica, embora os casos tenham dinâmicas diferentes, ambos expõem a mesma raiz de violência contra mulheres e meninas.

“São dois casos. Ontem tivemos outro que mostra o quanto é difícil ser mulher na sociedade. Um pai que mata uma filha porque ela expressa seus primeiros desejos amorosos. Ela não teve autonomia de vontade, ela não foi orientada, ela foi punida por se expressar, por começar a se desenhar como uma mulher perante a sociedade”, disse.

“Objetificação do corpo feminino”

No feminicídio de Josivany, as investigações apontam que a vítima havia desistido de um programa sexual combinado com o suspeito pouco antes do crime.

Reprodução

Josivany Borges, que foi encontrada morta; casa em que a vítima morava em VG

Segundo a delegada, os dois se conheceram na noite anterior ao assassinato e consumiram drogas em uma residência abandonada na região central de Várzea Grande.

Em determinado momento, a mulher disse que não queria mais manter relações sexuais. Ainda assim, segundo o depoimento de Gabryel, ele insistiu para que o ato acontecesse. Conforme as investigações, ele teria violentado a vítima e a espancado a pedradas quando ela reagiu. Em seguida, para ocultar o crime, incendiou o corpo da vítima.

“É mais um caso em que vemos uma completa e total objetificação do corpo da mulher, o descarte da autonomia de vontade do corpo feminino em relação ao que quer e ao que não quer fazer. Por esse motivo, ele foi autuado por feminicídio”, afirmou a delegada.

Josivany foi encontrada morta e carbonizada no dia 1º de junho, em uma área de mata no bairro Centro-Sul, em Várzea Grande.

Menina morta pelo pai

O outro caso citado por Jéssica Assis ocorreu no último domingo (7), quando uma adolescente de 12 anos morreu após ser agredida pelo próprio pai.

Segundo a investigação, Claudinei da Silva confessou ter esganado a filha durante uma discussão motivada por mensagens encontradas no celular da menina.

De acordo com o delegado Nilson Farias, a compressão foi tão intensa que provocou o rompimento de vasos sanguíneos no nariz da vítima.

A adolescente foi encontrada desacordada pela mãe e levada a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mas já chegou sem vida.

Para a Polícia Civil, as circunstâncias do crime justificaram a autuação por feminicídio.

Violência multifatorial

Na avaliação de Jéssica Assis, o combate aos feminicídios exige medidas que vão além da atuação policial.

Ela afirmou que os crimes contra mulheres possuem múltiplas causas e precisam ser enfrentados por diferentes frentes do poder público.

“O crime de feminicídio é extremamente multifatorial. A gente percebe, pelos últimos casos, que houve contextos de violência doméstica, violência contra criança e violência sexual contra a mulher. São muitas medidas que o poder público precisa adotar. O que a polícia faz é importante, mas as medidas são muito mais globais do que o mero policiamento”, afirmou.

A delegada classificou o assassinato de Josivany como um caso “revoltante” e “chocante” e reforçou que a DHPP continuará priorizando a responsabilização de autores de crimes dessa natureza.

“Independentemente da condição financeira, classe social, sexo ou orientação sexual da vítima, a gente não para enquanto não encontra esses agressores. Principalmente aqueles que tratam o corpo feminino com tamanho desprezo e tamanha crueldade”, disse.

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