Chuvas causam danos e casarão da “Gráfica Pepe” será demolido

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O casarão histórico que abrigou a primeira gráfica de Cuiabá, conhecida como “Gráfica Pepe”, apresentou risco de desabamento em parte da estrutura e deverá passar por demolição parcial. A ação será realizada de forma conjunta pela Defesa Civil, pelo IPHAN e pela Secretaria Municipal de Obras Públicas da Capital.

Segundo a superintendente do IPHAN em Mato Grosso, Ana Joaquina, os danos foram identificados após as fortes chuvas registradas na Capital na última segunda-feira (9). Após vistoria da Defesa Civil, foi recomendada a realização do desmonte parcial da estrutura para garantir a segurança do local.

“Essa fachada do fundo apresentou uma parte de desmoronamento e, junto com a Defesa Civil, entendemos que havia risco para os moradores e para os transeuntes. Por isso, está sendo feito o desmonte, que seria uma demolição controlada dessa parte da edificação que está arruinada”, relatou.

A demolição de parte da estrutura traseira da gráfica estava prevista para ocorrer nesta terça-feira (10). No entanto, segundo o secretário municipal de Obras Públicas, José Afonso Botura Portocarrero, devido à necessidade de uma análise mais aprofundada para evitar danos a outras estruturas, equipes da Prefeitura, da Defesa Civil e do IPHAN adiaram a operação e buscam alternativas para a realização da ação.

“Nós estamos estudando e aguardando também um parecer técnico sobre a estrutura, porque é um imóvel que está em uma situação delicada. Qualquer intervenção mais forte pode acarretar uma queda maior de tudo o que estamos tentando preservar”, ressaltou o secretário.

Conforme o secretário, a operação deverá ser realizada de forma manual para evitar danos a outras estruturas ao redor do espaço.

“Quando há implosão de um prédio, ele pode cair para um lado ou para outro, depende muito das condições da estrutura. Então, precisamos de muita atenção agora para fazer uma intervenção rigorosa, com todo o cuidado”, acrescentou.

Segundo a superintendente Ana Joaquina, a demolição controlada visa preservar parte da estrutura, bem como garantir a segurança do prédio do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (Misc), localizado ao lado do casarão.

Devido à proximidade do imóvel com o museu, o Misc precisou ser fechado por tempo indeterminado. A medida visa garantir a segurança dos colaboradores e visitantes.

“Temos previsão de chuva para hoje e para os próximos dias e, devido a essa situação, também recomendamos o fechamento temporário do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá”, explicou.

Segundo Ana Joaquina, após a conclusão da demolição de parte da Gráfica Pepe, o funcionamento do museu será retomado.

A história do casarão

Victor Ostetti/MidiaNews

Secretário municipal de Obras Públicas, José Afonso Botura Portocarrero

Construído em meados do século XIX, o casarão abrigou, em determinado período, o governador Generoso Ponce e, posteriormente, foi adquirido pela tradicional família cuiabana Hugueney.

Conforme o historiador e coordenador do Misc, Francisco das Chagas, com a aquisição do patriarca Avelino Hugueney de Siqueira, o imóvel se tornou um importante marco para a história de Cuiabá.

Após a morte de Avelino, Maria Luiza Hugueney de Siqueira abriu uma papelaria e gráfica no espaço, que passou a ser conhecida como Gráfica Pepe, também administrada por Naly Hugueney de Siqueira.

“Ela comandava a gráfica junto com a irmã, dona Pepe. A gráfica ficou conhecida como Gráfica Pepe. E foi aqui, nesse local, por volta da década de 1930, que aconteceu a fundação do Mixto Esporte Clube”, relatou.

Apesar de ter abrigado a gráfica, o espaço também se tornou um marco para a história do esporte na Capital, com a fundação do Mixto Esporte Clube após uma reunião realizada em maio de 1934.

Na ocasião, estavam presentes Zulmira Canavarros, Danglars Canavarros — esposo de Zulmira —, Naly Hugueney de Siqueira, Carlos Hugueney de Siqueira, Dácio Gomes Pulcherio, Raul Santos Costa e Delfino Nonato de Faria.

Segundo Francisco, a demolição parcial do espaço representa a perda de parte da história da Capital, mas foi considerada necessária devido ao estado de abandono do imóvel.

“É uma perda importante de um pedaço da história da cidade. Mas, por outro lado, também precisamos considerar que esse imóvel, do jeito que está, traz um risco muito grande para os transeuntes e, inclusive, impacta o funcionamento do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá, tendo em vista que é praticamente uma parede compartilhada”, relatou.

Abandono do casarão e reflexos no Centro Histórico

Os danos em parte do casarão, que abriga parte da história de Cuiabá, refletem um problema que atinge diversos edifícios no Centro Histórico da Capital. Segundo a superintendente do IPHAN, Ana Joaquina, devido ao grande número de herdeiros da família, houve impasses burocráticos que dificultaram a restauração do espaço.

Victor Ostetti/MidiaNews

Superintendente do IPHAN em Mato Grosso, Ana Joaquina

“É um imóvel de relevância, um imóvel que é, de certa forma, emblemático. É muito triste vê-lo nessa situação. Ele tem um imbróglio muito grande de herdeiros, um imóvel que possui mais de uma centena de herdeiros. Então, existe toda uma problemática em relação a essa questão e, infelizmente, temos outros imóveis na mesma situação”, ressaltou.

Diante da situação estrutural do prédio, o secretário municipal de Obras Públicas destacou a importância da ocupação do Centro Histórico e da mobilização da população para revitalizar os espaços que hoje estão abandonados.

“O pior que pode acontecer no Centro Histórico é o desuso, é as pessoas saírem. A pior coisa é essa, quando as pessoas se afastam. Precisamos tentar fazer com que essa população recomponha o Centro Histórico com novas parcerias e com outras pessoas ocupando esses espaços”, disse o secretário.

“Esse é o desafio agora: olhar para frente e entender que não dá para continuar com tantos anos de descaso com o nosso Centro Histórico”, finalizou.

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